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2025-07-31

O Ti Manelzinho

Durante a minha infância vivi em Vila Real, mesmo ao lado da bonita Capela Nova, por cima de um antigo estabelecimento comercial chamado Real. Mesmo em frente à nossa casa havia um lugar absolutamente encantador, que era a minha perdição — o "mítico" Bazar dos Três Vinténs, verdadeiro sonho de todas as crianças da cidade.

Como o meu pai desenvolvia a sua actividade profissional em São Tomé e Príncipe e apenas esporadicamente regressava à metrópole, e como os meus irmãos mais velhos estudavam no Liceu de Vila Real, morar ali acabou por ser a opção mais natural.

Foi na mesa da nossa sala, onde o Sol entrava pelas janelas e se avistava o sereno Rio Corgo e a sua imponente ponte metálica, que aprendi as primeiras letras e comecei a soletrar as palavras do jornal "O Primeiro de Janeiro", que o meu pai assinava religiosamente.

Quando ingressei na escola primária, mesmo em frente ao seminário diocesano, o mistério da leitura já se encontrava parcialmente desvendado para mim.

Foi precisamente por essa altura, no final do primeiro período lectivo, que os meus pais tomaram a importante decisão de regressar à minha terra natal, Oura. O meu irmão seguiria para a faculdade no ano seguinte e a minha irmã continuaria a frequentar o liceu, vivendo num quarto arrendado.

Lembro-me bem do primeiro dia na nova escola. A expectativa era grande, e um misto de nervosismo e entusiasmo percorria-me o peito. O meu novo professor era também o meu tio, Manuel Carvalho — o nosso querido Ti Manelzinho, como carinhosamente o tratávamos. Ele, orgulhoso, já tinha anunciado à turma que ia chegar um novo aluno... e que esse menino já sabia ler o jornal.

Mal entrei, e após os rituais de apresentação, fui chamado ao quadro para mostrar as minhas "habilidades". Mas o peso da timidez e do desconhecido foi mais forte. Com apenas seis anos, num ambiente novo, estranho, as palavras recusaram-se a sair. Emudecido, desatei a chorar e corri para casa, em busca do consolo doce e seguro da minha mãe.

O Ti Manelzinho ficou sem palavras. O brilharete que todos esperavam de mim... ruiu logo no primeiro dia.

Naquela época, a escola de Oura, como tantas outras espalhadas pelo país, dispunha apenas de duas salas de aula — a das raparigas, sob a orientação da professora Dona Albertina, e a dos rapazes. Em ambas, o número de alunos era elevado — cerca de quarenta –, divididos pelas quatro classes.

Apesar do arranque atribulado, cedo me apaixonei por aquela pequena escola. Ser sobrinho do professor trazia alguns privilégios, e os castigos colectivos — que por vezes se aplicavam com mão pesada — eram, no meu caso, aplicados com uma certa brandura. Lembro-me, aliás, de apenas um episódio em que fui realmente castigado.

Foi também por essa altura que começou a germinar em mim uma paixão profunda pela astronomia.

O meu tio, que, na sua infância, tinha observado a mágica passagem do cometa Halley, contava-nos com entusiasmo essa maravilhosa experiência, explicando-nos a periodicidade do fenómeno. Falava-nos das constelações com um fascínio contagiante, ensinando-nos a identificar a Ursa Maior, a Ursa Menor e a Estrela Polar — nomes que ficaram indelevelmente gravados na minha memória.

Nas noites escuras de Oura, quando o silêncio tomava conta do mundo e o céu se abria sobre mim, era para essas constelações que dirigia os meus olhos sonhadores. Também me recordo dos conselhos do meu tio sobre não olhar directamente para o Sol — alertas ingénuos, sim, mas ditos com tanto cuidado — "olhem através do fundo de uma garrafa de vidro escuro", dizia ele.

Um episódio, em particular, ficou gravado na minha memória como uma cena de um filme de mistério.

Estávamos numa tarde quente, pouco depois do almoço, quando alguém surgiu à porta da sala, ofegante. Murmurou algo ao professor e desapareceu. O Ti Manelzinho, com um ar repentinamente grave, subiu ao estrado e anunciou, em tom solene:

— Vem aí o inspector. Vamos embora. Depressa!

Saltámos das carteiras e seguimos atrás dele, em corrida desenfreada, em direcção ao pinhal que ficava a nascente da escola.

— Corram! Rápido! Está mesmo a chegar o inspector!

Cheios de medo do "bicho-papão" que se aproximava — como se fôssemos culpados de alguma traquinice —, corremos desalmadamente. Já no pinhal, fomo-nos escondendo atrás das densas giestas, obedecendo silenciosamente às ordens do mestre.

— Quietos! Nada de barulho. Não levantem a cabeça.

Ali ficámos, imóveis, até que o nosso mestre, após várias espreitadelas em direcção à escola, nos deu sinal de regresso. O "perigo" tinha passado.

Regressámos então à sala, de forma cuidadosa e silenciosa, como se nos tivéssemos livrado de um enorme perigo. Só muitos anos mais tarde percebi que o verdadeiro alvo da inspecção não éramos nós… mas sim o próprio Ti Manelzinho.

Ao chegar à quarta classe, a exigência aumentou — tanto para mim como para o meu colega Salvador, da Quinta das Bolas. Ambos nos preparávamos para prosseguir os estudos e teríamos de realizar o temido exame de admissão. Era necessário saber tudo — os rios, os caminhos-de-ferro, as serras de Portugal, e até os intrincados problemas de enchimento de tanques que nos faziam perder o sono.

Depois das aulas, comecei também a ir estudar para a casa do Ti Manelzinho, onde a afável tia Virinha — sua esposa — me recebia sempre com um sorriso caloroso e um lanche reconfortante.

Aí continuávamos a resolver os complexos problemas que me davam volta à cabeça. Em paralelo, comecei a preparar um trabalho manual — a colagem de fios de lã colorida sobre uma tábua de madeira lixada e envernizada, que representava uma casa na montanha.

O meu tio dizia que, no exame da quarta classe, teríamos de apresentar um trabalho manual. O plano era simples — levaria duas tábuas, uma ainda em branco, e outra quase pronta. Iniciaria a colagem na tábua vazia e, a meio da prova, trocaria discretamente pela outra, colando mais uns fios para simular o progresso.

No dia da prova, embora nervoso e com medo de ser apanhado, executei o plano. Os professores responsáveis pela avaliação elogiaram efusivamente o meu trabalho, chegando mesmo a destiná-lo a uma exposição.

O Ti Manelzinho — amigo, mestre, cúmplice das pescarias do meu pai — ficou para sempre gravado no meu coração. Pelo que ensinou, pela forma como cuidou de mim, pela ternura com que me guiou, foi uma dessas presenças que o tempo nunca apaga.

Paulo Coimbra

2012-12-23

Titties & Beer


23 de dezembro de 2012
Com tanto "Pai Natal" à solta, nada melhor que relembrar Zappa - Titties & Beer


2012-12-05

Naquela noite de verão

Todos nós gostamos, num ou outro momento, de pregar  uma partida aos amigos.
O meu amigo António (Ni, para os amigos), resolveu tirar do baú de recordações uma bela e elaborada partida dos nossos tempos de juventude, pregada ao nosso amigo Tó Mário.
Esta envolve uma visita inesperada de outro mundo...

... Era alto o Tó Mário, homem feito, costas curvas, branco como nenhum outro, olhos grandes encovados em olheiras arroxeadas. Naqueles estios infernais, refugiava-se nas suas experiências, ensimesmado, bem longe dos fedelhos ...

Leia mais aqui: Naquela noite de verão

2012-04-29

España

Bomba Galp em Espanha
Bomba Galp em Chaves

Nos meus tempos de juventude era habitual irmos fazer compras a Feces ou a Verin, dependendo daquilo que se queria comprar. 
Enquanto que em Feces eram os caramelos, os chocolates, os chinelos de quarto, as laranjas ou o pão, os produtos mais adquiridos, já o caso mudava de figura se queríamos algo mais.
Então a ida a Verin era imprescindível. 
Aí já conseguíamos as famosas calças Lois, fosse em versão bombazine ou em versão ganga. Também os pólos Lacoste, adquiridos no Recaredo, eram uma das peças que valia a pena comprar. Sob o calor estival, também uma laranjada El Caserio era uma compra obrigatória no supermercado Spar.
No regresso, o enorme receio de nos ser apreendidas as compras à entrada da fronteira, fazia que que escondêssemos as peças mais caras e proibidas debaixo dos assentos e dos tapetes do automóvel...
Nunca mais me esqueço de uma cena vivida pelo meu amigo António Barreira, que questionado na fronteira sobre algo que tivesse a declarar, responde:
- Nada de especial. Trago umas bananas...
- As bananas não precisa de declarar pois já estou a vê-las, responde a "autoridade".
Acontece que distraídamente ele tinha pousado as bananas no tejadilho do carro e dada a curta distância percorrida ainda lá se mantinham no momento da chegada à fronteira!
Hoje, a saga da ida a Espanha mantêm-se!
Vinte e cinco cêntimos num litro de gasolina é dinheiro! 


2012-04-04

Genesis-Selling England by the Pound



Lançado em 1973, Selling England by the Pound, foi um dos grandes êxitos do Genesis.
Nunca cheguei a adquirir, com muita pena minha, o disco de vinil.
Depois de o ouvir vezes sem conta numa gravação em K7, só nos anos 90 adquiri o CD, já em versão remasterizada.
Dancing With The Moonlit Knight, é uma das minhas canções favoritas!
Agora, ao ouvi-la mais uma vez, achei piada à associação que surgiu no meu cérebro:
Can you tell me where my country lies?

2012-01-17

Frank Zappa - I'm The Slime




I am gross and perverted
I'm obsessed 'n deranged
I have existed for years
But very little had changed
I am the tool of the Government
And industry too
For I am destined to rule
And regulate you

I may be vile and pernicious
But you can't look away
I make you think I'm delicious
With the stuff that I say
I am the best you can get
Have you guessed me yet?
I am the slime oozin' out
From your TV set

You will obey me while I lead you
And eat the garbage that I feed you
Until the day that we don't need you
Don't got for help...no one will heed you
Your mind is totally controlled
It has been stuffed into my mold
And you will do as you are told
Until the rights to you are sold

That's right, folks..
Don't touch that dial

Well, I am the slime from your video
Oozin' along on your livin'room floor

I am the slime from your video
Can't stop the slime, people, lookit me go

Frank Zappa, tão velhinho,tão actual...
Simplesmente soberbo!

2011-11-13

Orquestra do Norte

No pretérito dia 10 tive, mais uma vez, o privilégio de assistir a uma magistral actuação da Orquestra do Norte, sob a direcção do maestro José Ferreira Lobo.

Abro aqui um parêntesis. pois a propósito do maestro José Lobo, não posso deixar de recordar quando integrei o grupo coral que actuou na festa de finalistas do Liceu Nacional de Chaves. Os ensaios decorriam à noite, no salão dos Bombeiros Voluntários de Salvação Pública, mais conhecidos pelos "bombeiros de cima", sob a orientação do José Lobo. Não me recordo de todo o repertório, mas houve duas canções que não mais esqueci: When The Saints Go Marching In e Que cantam los poetas andaluces de ahora.
O perfeccionismo que nos era exigido, em tão curto espaço de tempo, não mas o esquecerei.

Regressando ao concerto, quero referir que o auditório do Centro Cultural de Chaves, encheu-se para o evento, que tinha a particularidade adicional de estrear o concerto para flauta e orquestra do compositor flaviense José Firmino.
A flautista era a fantástica japonesa Kayoko Minamino, que teve uma actuação soberba.
Está de parabéns José Firmino, por tão belo concerto.

Seguiram-se os os magníficos tangos de João Camacho, com todo o virtuosismo da orquestra a vir ao de cima.

Finalmente, e extra programa, tivemos ainda a oportunidade de escutar as Danzas Fantásticas (Exaltación, Ensueños e Orgía), do compositor espanhol Joaquín Turina, numa perfeita escolha de José Lobo, homenageando José Firmino.

2011-11-06

A viagem no "Pátria"

Sala de jantar do navio Pátria
A minha primeira viagem a S. Tomé e Príncipe foi a bordo do navio Pátria.
Na altura, as minhas maiores viagens tinham sido até à praia da Figueira da Foz.
Na minha mente infantil, não conseguia muito bem imaginar como iria ser tão longa viagem.

Fomos para Lisboa de comboio – até à Régua na linha do Corgo, depois a mudança para a linha do Douro e finalmente a viagem na linha do Norte até Lisboa – uma autêntica odisseia para mim!
Eu já estava saturado da viagem e o meu pai para me aliciar dizia-me que em Lisboa iríamos andar de táxi…, isto sem qualquer explicação adicional para não quebrar a magia (eu desconhecia o que era um táxi!).
Quando entro no táxi, sofri uma grande decepção: o nosso Ford Cônsul era bem melhor!

Lembro-me, isso sim, do meu fascínio com a iluminação publicitária nos telhados dos edifícios da baixa lisboeta. À noite, antes de ir para a cama, ficava imenso tempo à janela, a ver as luzinhas coloridas a acender e a apagar. Se não estou em erro, havia um painel enorme da Oliva
Chegado o dia da partida, fiquei admirado com o tamanho do navio. Visto do cais, impressionava pela altura. Para mim era enorme!
Gostei imenso do nosso camarote. Tudo era um pouco mais pequeno e das vigias podia ver o mar.
À passagem da barra do Tejo e até à Madeira, passei um suplício. O enjoo foi constante e comecei a detestar a viagem.

Contudo, a partir daí tudo mudou. O enjoo desapareceu, a temperatura era agradável e eu adorava estar no convés a admirar a imensidão do mar. À piscina fui poucas vezes, pois a água era muito fria. Gostava era de brincar na sala das crianças. Tinha muitos jogos e um quadro para desenhar a giz.
Navio Pátria
A hora das refeições era sempre um momento solene. O meu pai comia na mesa do comandante, mas eu e a minha mãe comíamos numa mesa à parte, para eu não o incomodar com as minhas traquinices.
Sei que à noite havia festas, mas eu não fui a nenhuma.

Chegados a S. Tomé, vivi uns momentos de grande medo. Uma vez que não existia cais acostável para navios daquele calado, o navio ficava fundeado ao largo. A viagem para terra fazia-se a bordo dos chamados “gasolinas”, pequenas embarcações a gasolina, que transportavam talvez um dúzia de passageiros em cada viagem. O meu medo surgiu ao descer uma horrível e oscilante escada de corda e madeira, encostada ao casco do navio, desde o convés até ao “gasolina”. A altura era grande e tive um medo terrível de cair ao mar…
Mas tudo correu bem. Foram nove dias extraordinários, que nunca mais esquecerei.

2011-10-09

Gentle Giant - Free Hand

Free Hand - 1975
Mais uma vez o vinil...
Alemanha, 1976. "Perdido" numa grande superfície de Karlsruhe, não conseguia decidir que disco devia comprar. As tentações eram muitas e a oferta maior ainda! Não me era permitido ouvir os discos, que se encontravam selados.
Os Gentle Giant, banda britânica de rock progressivo, tinham lançado no ano anterior um álbum que eu já tinha parcialmente escutado, e ... gostado. Uma das características do grupo eram as suas múltiplas e sincronizadas vocalizações, que muito me impressionavam.
Depois de várias hesitações, peguei no disco e disse para mim mesmo: Vou levar este!
Só o ouvi quando cheguei a Portugal. Com todo o cuidado, coloquei-o no prato do gira-discos e mais uma vez preparei o gravador, como sempre fazia - os discos só raramente os ouvia, para não se riscarem!
Lado A, lado B, fabuloso! Tinha sido uma boa opção. Entre as minhas preferidas, não quero contudo deixar de salientar Free Hand e On Reflection.

2011-10-02

Danyèl Waro (Georges Brassens – Mauvaise Réputacion)

Influenciado pela música de origem anglo-saxónica, desconhecia quase em absoluto a música francesa.

Quando a sede de aventura me levou, na década de 70, até França, “descobri” uma canção que não mais esqueci – Mauvaise Réputacion, de Georges Brassens.

Isto, porque havia um francês que estava connosco, que era um exímio tocador de viola. Entre as diversas músicas que iam surgindo no seu repertório, houve esta em especial que me marcou, essencialmente pela sua letra. Memorizei, até hoje, parte dela.

A versão que aqui trago, de Danyèl Waro, cantada em crioulo da ilha de Reunião, é uma versão assaz curiosa!

Veja aqui a versão original.

2011-08-11

Músicas da (minha) vida - Garota de Ipanema

Garota de Ipanema é uma daquelas músicas que se ouvem vezes sem conta, sem nunca cansar.
Interpretada por variados músicos e em diversas versões, transporta-nos sempre para um universo sereno que calmamente vai fluindo no tempo, deixando para trás a juventude e realçando em simultâneo a beleza, que é de todos.
Da panóplia de versões, aqui deixo esta que muito aprecio:

2011-08-01

Jarama 1980 F1 GP

Carmim, eu, Ni, Zé, Mendes e Carlos
Jarama, 1 de Junho de 1980
Após duas prévias idas a Jarama, o bichinho da F1 foi lançado aos amigos e até os menos entusiastas aderiram. Após ter conseguido que o meu pai me autorizasse a levar a 4L, começamos a delinear a viagem. Iriam duas 4L, a minha e a do Carmim, para um total de 8 passageiros. Na época não existiam autovias e a única auto-estrada era já perto de Madrid. Saímos ao início da noite, de modo não só a evitar o trânsito, mas também para conseguirmos estar em Jarama logo de manhã. Um arreliador furo na Sanabria atrasou-nos imenso, mas a viagem continuou. Antes de Madrid, ao romper da aurora e após termos evitado a auto-estrada para pouparmos mais uns trocos, olho para o Carlos: tinha colocado uns palitos nos olhos para que eles não se fechassem. Parti-me a rir!
Acampamos ao lado do autódromo, como no ano anterior.
O som e o cheiro dos F1 chegavam até nós... Verdadeiramente inebriante.
A passagem pelas boxes no fim dos treinos, era um dos momentos que eu adorava - ver o ambiente, tocar nos carros, sentir o cheiro...
A vitória coube a Alan Jones, se bem que essa prova não tenha contado para o mundial devido à polémica entre a FISA e a FOCA.
No regresso, quando levava o Carlos a casa, sinto um barulho. O braço da direcção tinha-se quebrado. A 4L já teve que ser rebocada, mas a sua missão estava cumprida.
Veja aqui o video da corrida.

2011-07-09

As férias na Figueira da Foz


Indeléveis nas minhas memórias, estão as férias de verão passadas na Figueira da Foz durante a minha infância.
O meu pai sempre apreciou a praia da Figueira da Foz, ao contrário do que era usual aqui na região, onde a ida para a Póvoa de Varzim era uma regra. Saíamos de manhã bem cedinho pois, na época, a viagem que para mim era uma odisseia, era muito demorada. O percurso em si não era dado a enganos, contudo, na travessia dos maiores aglomerados urbanos, era frequente o meu pai não saber por onde seguir, dada a deficiente sinalização. Aí vinha a pergunta sagrada, que eu não mais esqueci de tantas vezes a ouvir: “Por favor, fazia a fineza. A estrada para…” E lá seguíamos nós! Quando a hora de almoço se aproximava, o que geralmente acontecia depois de Espinho, o meu pai procurava um pinhal propício para uma pausa retemperadora. A minha mãe de imediato ordenava à empregada que preparasse tudo para a refeição, confeccionada na véspera. Eu aproveitava para dar umas correrias e explorar as imediações. O apetite era sempre voraz.
Chegados à Figueira e após nos instalarmos na casa previamente arrendada, era preciso ainda ir ultimar os detalhes do aluguer da barraca. Eu morria de ansiedade para ir para a praia com os meus baldes, pás, jogos, formas, etc. Os primeiros dias eram sempre um suplício devido aos escaldões. Só após o 3º ou 4º dia é que a pele deixava de doer. Os dias eram longos e passavam lentamente. O meu pai raramente se expunha ao sol. Preferia ficar à sombra da barraca a ler O Primeiro de Janeiro. A praia era, ao contrário do que agora acontece devido à construção dos esporões, muito perto da casa – bastava atravessar a rua.
Aos domingos nunca íamos à praia, pois havia muita confusão. À tarde, após a sesta, fazia-se o passeio obrigatório à Serra da Boa Viagem. A vista sobre o mar era lindíssima e sempre corria uma brisa.
Uma das alturas do dia que eu sempre ansiava, era a chegada da empregada com o lanche. Parece que ainda sinto o odor daquele cabaz repleto de coisas boas… Claro que também não me esqueço das deliciosas “batatinhas fritas à inglesa” compradas no local.

Um ano, já talvez com sete anos de idade, fui para a escola de natação da piscina que existia perto do forte. As aulas decorriam na areia, onde se faziam os movimentos para nadar bruços, “em seco”. Só passados alguns dias é que tínhamos direito a ir para a água para fazer os mesmos exercícios, mas enfiados numas bóias que se encontravam suspensas na água. Conclusão, não aprendi a nadar! Vim a consegui-lo de regresso a casa, na piscina do Hotel Palace em Vidago.
Não posso deixar de referir os deliciosos gelados, saboreados quando acontecia sairmos à noite, por entre os avisos da minha mãe: Olha que o Paulo ainda está a fazer a digestão!

2011-06-08

Músicas da (minha) vida

The Six Wives of Henry VIII em Hampton Court Palace (2009)
Há uma idade para tudo!
Na música, também essa frase se aplica. 
Desde a música de embalar ao pop, desde o jazz à música clássica, todos nós vamos percorrendo e preenchendo o nosso universo musical com os mais variados géneros. Na juventude, e generalizando um pouco, o rock costuma ser rei e senhor. Não poderia deixar de ser de outra forma – é a época da rebeldia, da vontade de mudar o mundo, da construção e afirmação do nosso “eu”…
Dessa época, recordo hoje Rick Wakeman, mais precisamente três dos seus álbuns (álbuns que eu gostava de ouvir na íntegra, dando especial atenção à letra) de que muito gostei (e ainda gosto):

2011-05-11

Apollo 11 - Uma missão inesquecível

Aquele dia 20, do mês de Julho, do ano de 1969, permanece indelevelmente gravado na minha memória.
Colado ao televisor, bebia todas as imagens que iam passando no écran, lamentando não perceber o teor das comunicações originais transmitidas.
Recordo-me que, por essa altura, uma das marcas de gelados existentes (penso que a Rajá), oferecia uma lua em miniatura, com todo o relevo lunar e os nomes dos mares e das crateras. Com essa lua na mão, imaginava a Apollo 11 a alunar no Mar da Tranquilidade e os astronautas a passearem pela sua superfície ...
Ao "passear" pela rede vi esta foto que me fez recordar essa época.
Aqui fica!
Fonte: http://www.boston.com/bigpicture

2011-03-15

Memórias

Finais dos anos 70…
Íamos dar a nossa primeira Great Party
Local escolhido: O “55” da Rua Santos Vidago
Fazem-se os convites às meninas de Chaves.
Começam os preparativos – a decoração, a iluminação adequada, a aparelhagem sonora…, nada poderia falhar.
Tinha que ser inesquecível!
A selecção musical era uma peça chave. Teríamos que tentar conciliar música dançável com música audível. Será melhor esta, ou aquela?
Dado o recente êxito do Saturday Night Fever, estava decidido: Abrir com Stayn Alive, dos Bee Gees. Não esquecer Beatles, Queen, Deep Purple, etc.
Os Village People obviamente não poderiam faltar.
Introduzir a quase desconhecida banda portuense King Fisher's Band e o seu folk-rock.
A apoteose dar-se-ia com um disco recentíssimo trazido pelo Musto e grande êxito nas discotecas de Nova Iorque – Le Freak da banda Chic, que ensaiamos até à exaustão e que nos valeu o rótulo de “Os travolta”.
No final tínhamos uma certeza: Tinha sido um sucesso!

2011-03-04

A nostalgia do vinil...

Guardo com imensa estima os meus dois primeiros discos de vinil (King Crimson – In the Wake of Poseidon e Jethro Tull – Aqualung), comprados no mesmo dia, após conseguir algumas poupanças. Nessa altura os discos eram caros. Era habitual fazer-se a cópia dos mesmos para cassetes e partilhar com os amigos. Lembro-me das tardes passadas na sala de estar dos meus pais, junto com os meus amigos, ouvindo a música, conversando, enquanto o gravador ia cumprindo a sua missão. Os discos eram pegados com imensa cautela, laboriosamente limpos, não fosse o incomodativo estalido do pó aparecer na audição. À medida que ia adquirindo mais discos, sempre segui o mesmo ritual: gravá-los em cassete para não os estragar.
É com alguma nostalgia que recordo o vinil – o seu tamanho, o seu cheiro, o seu manuseamento…