Perto do apeadeiro do Salus, numa das
encostas do Monte Meão, um frondoso monte compreendido entre Vidago, Oura e
Vila Verde, situava-se o troço que permitia concretizar um dos nossos
passatempos de verão – descer a montanha em bicicleta.
Nessa altura ainda estávamos muito
longe do aparecimento das BTT e das provas de “downhill”. Contudo, como pedalar
era penoso, era com as descidas de montanha que nós podíamos competir com muita
adrenalina e não muito esforço.
As longas férias de verão,
pachorrentamente fluindo sob o tórrido calor estival, davam-nos o tempo e a
liberdade para explorar os segredos da natureza e desafiar os limites do nosso
corpo.
O monte, a nossa pista de corridas,
era um lugar mágico, onde a luz do sol dançava entre o arvoredo. Sob a sombra
protetora dos pinheiros aliado ao perfume das giestas, das arçãs e do
rosmaninho, tudo se harmonizava e nos envolvia num abraço quente e acolhedor.
As curvas da descida, como os contornos de um corpo amado, eram um desafio constante,
um convite à superação e à entrega.
O Zito e o Ni, com a sua bicicleta com
volante de cross, eram os nossos guias, os nossos heróis. A sua perícia e
determinação inspiravam-nos a dar o nosso melhor, a lutar por cada segundo, a
sentir a adrenalina a correr nas nossas veias.
E eu, com a minha bicicleta pesada e
antiga, sentia-me como um cavaleiro medieval, a lutar pela honra e pela glória.
Cada pedalada era um esforço, uma batalha contra a gravidade e o tempo, mas a
recompensa era a sensação de liberdade, a alegria de sentir o vento na cara e a
adrenalina a correr nas veias.
Marcado o dia, aí íamos nós, estrada
acima, tentando não gastar muitas energias que seriam preciosas para dar na
corrida aquele impulso adicional. Chegados ao local, procedíamos à sincronização
do relógio e do cronómetro. O primeiro ficaria no ponto de partida, onde de
cinco em cinco minutos partiria cada um de nós, enquanto na meta, o cronómetro registaria
o momento da chegada, sempre com dois elementos a comprovar a veracidade do tempo
e efectuar, numa folha de papel, o respectivo registo.
O coração batia forte. A magia estava
prestes a acontecer.
Havia zonas mais íngremes, zonas mais
planas. Curvas longas e curvas apertadas. Em algumas delas a agulheta dos
pinheiros atapetava o chão. Para complicar, algumas curvas tinham ainda inclinação
para o exterior – “relevé” ao contrário, como dizíamos. Era difícil saber os
limites, pois a qualquer momento a falta de aderência podia fazer-nos cair e
deitar tudo a perder.
A meta, situada junto a um pinheiro
debruçado no caminho, ficava já muito próxima da Estrada Nacional Nº2. Era a
pedalada final, o impulso para a vitória.
Mas o melhor de tudo era a nossa
amizade, o nosso espírito de camaradagem. As gargalhadas que ecoavam pelo
monte, os momentos de partilha e cumplicidade, os olhares de incentivo e
apoio... tudo isso tornava as nossas corridas de bicicleta numa experiência
inesquecível, num capítulo mágico da nossa juventude.
Ao recordar esses momentos, sinto uma
nostalgia doce e melancólica, a saudade de um tempo em que a vida era simples,
pura e intensa. Um tempo em que a amizade e a aventura eram os nossos maiores
tesouros."
Paulo Coimbra