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2025-04-01

“Relevé” ao contrário

 

Perto do apeadeiro do Salus, numa das encostas do Monte Meão, um frondoso monte compreendido entre Vidago, Oura e Vila Verde, situava-se o troço que permitia concretizar um dos nossos passatempos de verão – descer a montanha em bicicleta.

Nessa altura ainda estávamos muito longe do aparecimento das BTT e das provas de “downhill”. Contudo, como pedalar era penoso, era com as descidas de montanha que nós podíamos competir com muita adrenalina e não muito esforço.

As longas férias de verão, pachorrentamente fluindo sob o tórrido calor estival, davam-nos o tempo e a liberdade para explorar os segredos da natureza e desafiar os limites do nosso corpo.

O monte, a nossa pista de corridas, era um lugar mágico, onde a luz do sol dançava entre o arvoredo. Sob a sombra protetora dos pinheiros aliado ao perfume das giestas, das arçãs e do rosmaninho, tudo se harmonizava e nos envolvia num abraço quente e acolhedor. As curvas da descida, como os contornos de um corpo amado, eram um desafio constante, um convite à superação e à entrega.

O Zito e o Ni, com a sua bicicleta com volante de cross, eram os nossos guias, os nossos heróis. A sua perícia e determinação inspiravam-nos a dar o nosso melhor, a lutar por cada segundo, a sentir a adrenalina a correr nas nossas veias.

E eu, com a minha bicicleta pesada e antiga, sentia-me como um cavaleiro medieval, a lutar pela honra e pela glória. Cada pedalada era um esforço, uma batalha contra a gravidade e o tempo, mas a recompensa era a sensação de liberdade, a alegria de sentir o vento na cara e a adrenalina a correr nas veias.

Marcado o dia, aí íamos nós, estrada acima, tentando não gastar muitas energias que seriam preciosas para dar na corrida aquele impulso adicional. Chegados ao local, procedíamos à sincronização do relógio e do cronómetro. O primeiro ficaria no ponto de partida, onde de cinco em cinco minutos partiria cada um de nós, enquanto na meta, o cronómetro registaria o momento da chegada, sempre com dois elementos a comprovar a veracidade do tempo e efectuar, numa folha de papel, o respectivo registo.

O coração batia forte. A magia estava prestes a acontecer.

Havia zonas mais íngremes, zonas mais planas. Curvas longas e curvas apertadas. Em algumas delas a agulheta dos pinheiros atapetava o chão. Para complicar, algumas curvas tinham ainda inclinação para o exterior – “relevé” ao contrário, como dizíamos. Era difícil saber os limites, pois a qualquer momento a falta de aderência podia fazer-nos cair e deitar tudo a perder.  

A meta, situada junto a um pinheiro debruçado no caminho, ficava já muito próxima da Estrada Nacional Nº2. Era a pedalada final, o impulso para a vitória.

Mas o melhor de tudo era a nossa amizade, o nosso espírito de camaradagem. As gargalhadas que ecoavam pelo monte, os momentos de partilha e cumplicidade, os olhares de incentivo e apoio... tudo isso tornava as nossas corridas de bicicleta numa experiência inesquecível, num capítulo mágico da nossa juventude.

Ao recordar esses momentos, sinto uma nostalgia doce e melancólica, a saudade de um tempo em que a vida era simples, pura e intensa. Um tempo em que a amizade e a aventura eram os nossos maiores tesouros."

 

Paulo Coimbra

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