“GT”. Duas letras que evocam
imagens de velocidade, potência e adrenalina. Um acrônimo que, na década de 70,
era sinônimo de desempenho e velocidade. No entanto, o protagonista da história
era tudo menos isso. Um cão gentil, com um apetite voraz por açúcar e uma
preguiça de dar inveja a qualquer gato. Como um carro desportivo transformado
em táxi, o GT era um enigma ambulante. De “Grande Turismo” só o nome e nada
mais.
Para
entendermos o porquê de tal designação, devo dizer que o dono era o Manuel do
café Capri, de quem ganhou a alcunha.
O
Manuel “Capri” era um grande adepto dos desportos motorizados. Não era por
acaso que o seu automóvel era um Ford Capri GT. Tudo que fizesse barulho e
consumisse gasolina era do seu agrado. Na época, sempre que um modelo automóvel
possuísse uma versão mais requintada e desportiva, essa era a versão “GT”.
Não
será pois de estranhar que o nome do cão fosse também ele uma versão de topo
dos nomes caninos.
Só
que o GT era tudo menos desportivo. Molengão, movendo-se languidamente, adorava
deitar-se debaixo das mesas, aos pés dos clientes. Com os seus olhos
sonolentos, parecia pedir mentalmente mais um pedaço de açúcar, enquanto
balançava a cauda com preguiça, como se estivesse a dizer: “A vida é boa, mas
poderia ser melhor com um pouco mais de doçura”. Esta era a sua perdição. De
tanto açúcar comer já poucos dentes possuía. Alguns caninos e pouco mais.
Sempre que bocejava, pois ladrar nunca o ouvi, era perceptível a ausência da
maioria dos dentes, restando apenas alguns molares.
Nas
tardes pachorrentas que, em amena cavaqueira, sentados no muro lateral da esplanada
do Capri, íamos observando tudo que se ia desenrolando à nossa volta, uma coisa
que sempre nos fazia rir às gargalhadas, era o momento em que alguma cadela com
o cio, passava com uma turba de cães atrás dela. Na altura, ao contrário de
agora, andavam imensos cães à solta nas ruas, percorrendo as artérias da vila
em grande alvoroço. Era nessa ocasião que lá ia o GT, nos últimos lugares da
alcateia, tentando também que os seus genes passassem à geração seguinte.
Contudo, o que invariavelmente se verificava era que o GT nunca conseguia os
seus intentos, sempre ultrapassado pelos seus congéneres, mais enérgicos e
viris. Pobre GT…
Algo
que naquela altura nos ocupava as longas noites de inverno, era irmos para o nº
55 da Rua Santos Vidago, mais conhecida como a rua do cinema. Aí ouvíamos vezes
sem conta, os “LP´s” que possuíamos, desde Pink Floyd aos Emerson, Lake &
Palmer, desde Louis Armstrong a Strauss. Sempre num ambiente de boa disposição,
com muitas histórias pelo meio, até que o avançado da noite nos fazia regressar
a casa.
Era
nessa altura que eu via o GT. Fosse no pico do Verão, fosse numa gélida noite
de Inverno em que se tiritava de frio e não se via um palmo à frente do nariz
devido ao nevoeiro, ao passar pelo cinema, lá estava o GT, alheio a tudo,
dormindo no meio da rua, enrolado sobre si mesmo. Uma ilha solitária num mar de
asfalto. Como eu já estava a prever a sua presença, ia sempre atento e
cuidadoso, para que uma roda da “4L” não lhe passasse por cima.
Era
nessa altura que me vinha à cabeça a expressão “vida de cão”.
Paulo
Coimbra
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